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terça-feira, 21 de maio de 2019

Azitromicina pode reduzir falha terapêutica nas crises de doença pulmonar obstrutiva crônica
Um curso prolongado de baixa dose de azitromicina pode reduzir significativamente a falha terapêutica nos pacientes internados por exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), sugerem novos dados.
Embora os benefícios clínicos da estratégia pareçam diminuir ao longo do tempo após a suspensão do antibiótico, "nossa proposta de intervenção pode ajudar a enfrentar o período de maior risco de reinternação e oferecer uma nova forma de tratamento da exacerbação infecciosa grave da DPOC que exige hospitalização", escreveram Kristina Vermeersch e colaboradores, ela do Departamento de Doenças Respiratórias dos Hospitais da Universidade de Leuven, na Bélgica, em um artigo publicado on-line no American Journal of Respiratory e Critical Care Medicine.
Em estudos anteriores, o acréscimo do tratamento prolongado com azitromicina como conduta convencional tem sido associado a menor risco de exacerbação entre os pacientes com DPOC frequentemente internados por distúrbios respiratórios, mas este é o primeiro estudo a investigar essa estratégia quando o medicamento é iniciado no momento da internação hospitalar, escrevem os autores.
O ensaio multicêntrico analisou os desfechos de 301 pacientes hospitalizados com exacerbação da DPOC. Os pacientes foram randomizados para o tratamento com azitromicina (N = 147) ou placebo (N = 154) em até 48 horas após a internação. O grupo de tratamento recebeu azitromicina 500 mg por três dias, seguida de azitromicina 250 mg a cada dois dias durante 90 dias. O desfecho primário foi o tempo até a falha terapêutica, definida como ocorrência de qualquer um dos três desfechos: necessidade de intensificação do tratamento, necessidade de intensificar a assistência hospitalar ou morte por qualquer causa.
No total, 69 pacientes do grupo da azitromicina (49%) e 86 do grupo placebo (60%) apresentaram falha terapêutica (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,73; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,53 a 1,01; P = 0,0526) durante a fase do tratamento, informaram os autores.
Embora a diferença de 18% de falha terapêutica não tenha sido estatisticamente significativa, os resultados indicam uma forte tendência em favor da intervenção, disseram os autores. O ensaio clínico, observam os pesquisadores, teve baixo poder estatístico porque a meta de recrutamento foi reduzida devido à lentidão do recrutamento, segundo os autores. Isto poderia levar à falta de significância estatística.
No entanto, quando analisados individualmente, dois dos três componentes da falha terapêutica apresentaram reduções estatisticamente significativas com a azitromicina em comparação ao placebo. Especificamente, três meses após a randomização, 47% dos pacientes no grupo da azitromicina precisaram de intensificação vs. 60% no grupo do placebo (HR = 0,70; IC 95%, de 0,51 a 0,97, P = 0,0272) e 13% dos pacientes do grupo da azitromicina precisaram de intensificação do tratamento ou reinternação versus 28% no grupo do placebo (HR = 0,43; IC 95%, de 0,25 a 0,75, P = 0,0024). Não houve diferença significativa de casos de morte entre os dois grupos que foi de 2% vs. 4% (HR = 0,62; IC 95%, de 0,15 a 2,59; P = 0,5075).
O tratamento com azitromicina foi benéfico em relação a várias medidas durante a internação. O tempo de internação durante o período de três meses foi reduzido de uma média de 14 dias para 11 dias, e a média do número de dias na unidade de tratamento intensivo foi reduzida de 11 dias para três dias, relatam os autores.
Durante o estudo, houve três eventos de prolongamento do intervalo QTc, dois no grupo do tratamento e um no grupo do placebo. Nem esta diferença nem a observada para qualquer outro evento adverso foi significativa, destacam os autores.
A diferença máxima entre os grupos na incidência de falha terapêutica foi observada 30 dias depois da suspensão do medicamento. Após a interrupção do tratamento, os índices de falha terapêutica de ambos os grupos convergiram e se superpuseram.
"A clara convergência do momento até o evento forma uma curva seis meses depois da retirada do medicamento demonstrando que o tratamento prolongado parece ser necessário para sustentar seus benefícios clínicos", escrevem os autores. É possível, acrescentam, que seja preciso mais de três meses de tratamento para "interromper suficientemente o círculo vicioso de inflamação a ponto de alterar o fenótipo de 'exacerbação frequente'," escreveram os pesquisadores.
Ao vincular o tratamento hospitalar da exacerbação grave da DPOC e o tratamento ambulatorial após a alta, a intervenção proposta corrige uma lacuna no tratamento de urgência desses pacientes durante o qual um processo inflamatório ativo pode ainda estar "latente", disseram os autores. Além dos recentes ensaios clínicos mostrando diminuição das internações hospitalares com corticosteroides inalatórios e inibidores da fosfodiesterase 4, "nenhuma outra intervenção regular baseada em evidências demonstrou tamanho potencial além do tratamento de manutenção com broncodilatadores ação prolongada", continuam os pesquisadores.
A estratégia de intervenção proposta pelos autores tem importantes implicações clínicas, de acordo com o Dr. James F. Donahue, médico e professor de medicina na Divisão de Pneumologia e Medicina Intensiva da University of North Carolina na Chapel Hill School of Medicine.
"A terapêutica e a recidiva são questões importantes na DPOC," disse Dr. James em uma entrevista para o Medscape. "Reduzir esses índices pode diminuir o ônus da doença e melhorar o tratamento desses pacientes".
A azitromicina é amplamente utilizada na medicina para tratar doenças como bronquiolite obliterante com pneumonia em organização, panbronquiolite e doença de pequenas vias respiratórias, entre outras. Além do seu efeito antimicrobiano, a azitromicina também exerce outros efeitos importantes que podem contribuir para sua eficácia nestes pacientes, disse Dr. James.
"Os macrolídios têm efeito na função das células caliciformes e das glândulas submucosas, reduzindo a hipersecreção de muco nas vias respiratórias, como a bronquite crônica, que atinge as células caliciformes e as glândulas de muco", explicou o médico.
Dr. James destacou que a estratégia de intervenção deve ser considerada com cuidado, especialmente no que diz respeito ao programa de administração supervisionada de antibióticos. O médico indicou que o potencial de uso excessivo de antibióticos "em um ambiente já saturado" poderia mudar os padrões de resistência aos antimicrobianos.
Os autores reconhecem que a resistência bacteriana é o principal risco do uso prolongado da azitromicina. No estudo, os pesquisadores monitoraram a resistência, mas o pequeno número de amostras de escarro inviabilizou a avaliação completa da indução de resistência pela azitromicina.
Dado o potencial de resistência aos antibióticos, bem como a possibilidade de efeitos pró-arrítmicos, os pesquisadores recomendam uma "abordagem cautelosa e individualizada" ao escolher os pacientes que podem se beneficiar ao máximo deste tratamento.
O estudo foi financiado pela Agência de Inovação, Ciência e Tecnologia do governo de Flandres (Fwo Vlaanderen), Belgium Respiratory Society e pela empresa Teva da Bélgica. Os autores do estudo informam ter relações financeiras com várias empresas, com Boehringer-Ingelheim, AstraZeneca, Novartis, Chiesi, GlaxoSmithKline, UCB Pharma, MSD, Pfizer, Teva, Zambon e Sanofi/Regeneron. O Dr. James Donahue informou não ter conflitos de interesses relevantes.

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