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quarta-feira, 17 de abril de 2019

Ataque cardíaco e AVC podem ser sinais precoces de câncer

Segundo pesquisadores, no ano que antecede o diagnóstico de câncer, o risco de eventos tromboembólicos aumenta em 69%


Os cânceres com maior frequência de eventos cardiovasculares são pulmão, colorretal, próstata, mama, bexiga, Linfoma não Hodgkin, pâncreas, estômago e útero. (SolStock/Getty Images)

Eventos cardiovasculares, como acidente vascular cerebral (AVC) e ataque cardíaco podem ser um indicativo precoce de câncer em indivíduos acima dos 67 anos, revela estudo recente publicado no periódico Blood. Segundo os pesquisadores,  o risco é de 69% durante o ano que antecede o diagnóstico, com pico de incidência cinco vezes mais alto ao longo dos 30 dias anteriores a identificação da neoplasia. Os resultados ainda mostraram que os cânceres com maior frequência de eventos são pulmão (29%), colorretal (24%), próstata (11%), mama (10%), bexiga (8%), linfoma não Hodgkin (6%), pâncreas (5%), estômago (4%) e útero (3%).
“Alguns tumores apresentam tendência maior a promover alterações no sangue que favorecem o surgimento de coágulos sanguíneos que podem resultar em eventos cardiovasculares”, explica Ismael Dale, oncologista e assessor médico do Fleury Medicina e Saúde. Isso acontece porque essas doenças atuam nas mesmas bases fisiopatológicas, ou seja, promovem as mesmas alterações no metabolismo. Por causa disso, para certos tipos de câncer, como o de pulmão, por exemplo, os médicos já esperam que o paciente desenvolva quadros de trombose arterialembolia pulmonar ou AVC isquêmico.
Com as novas informações, especialistas acreditam que profissionais de saúde devem ficar atentos para casos de pacientes acima dos 60 anos internados em decorrência de ataque cardíaco e AVC, buscando analisar a eventual necessidade de exames para investigar a presença de câncer – o que pode permitir um diagnóstico precoce, facilitar o tratamento e aumentar as chances de cura. Além disso, indivíduos acima dos 35 anos que apresentem estado de resistência insulínica – um sinal em comum a uma variedade de cânceres – também precisam se atentar para a possibilidade, principalmente àqueles com histórico familiar da doença.

Sinais precoces


Para chegar a estes resultados, os pesquisadores americanos analisaram o prontuário de 748.662 pessoas com idade superior a 67 anos entre 2005 e 2013. Entre os pacientes investigados, 374.331 receberam diagnóstico de câncer no período. Os demais participantes foram colocados em um grupo de controle para fins de comparação. A partir daí, a equipe rastreou eventos tromboembólicos no ano que antecedeu o diagnóstico da neoplasia. Nos primeiros sete meses, não houve qualquer diferença entre os dois grupos. Entretanto, nos meses que se seguiram, o risco de um evento cardiovascular aumentou em pacientes que mais tarde seriam diagnosticados com a doença. 
De acordo com os cientistas, um mês antes da identificação do câncer, a probabilidade dos pacientes apresentarem um quadro de AVC isquêmico ou infarto agudo do miocárdio aumentou cinco vezes em comparação com os participantes que não receberam diagnóstico de câncer posteriormente. Entre os cânceres com maior incidência estavam o de pulmão e o colorretal. “Esses resultados mostram que podem existir alterações metabólicas comuns a diferentes tipos de câncer que devem ser encaradas como provável ‘sinal de alerta oncológico'”, comentou Dale.
Embora sejam significativas, os pesquisadores destacaram que previamente, essas evidências apenas se aplicariam a indivíduos acima dos 67 anos – população investigada no estudo. No entanto, segundo Dale, existe um sinal comum a uma variedade de cânceres, incluindo os detalhados no estudo, que podem servir de alerta para pessoas acima dos 35 anos: os estados de resistência insulínica. 
O especialista explica que muitas pessoas, especialmente obesas ou com excesso de peso, desenvolvem problemas metabólicos, sendo um deles relacionado à produção de insulina – hormônio responsável por promover a entrada de glicose nas células, o que fornece energia ao organismo, além de reduzir a taxa de glicemia no sangue. No entanto, nestes indivíduos, esse processo não ocorre de forma adequada, gerando estado de resistência insulínica. Por causa disso, o organismo busca outras fontes de energia para manter o corpo funcionando. “Esses mecanismos de compensação por vezes favorecem o surgimento de tumores malignos”, esclarece Dale.
Esse mau funcionamento também pode resultar em diabetes tipo 2. Por isso, a recomendação é realizar exames anualmente para aferir as taxas de glicose no sangue.

Como surgem?

Câncer

De acordo com Dale, o processo de surgimento do câncer, conhecido como carcinogênese, acontece a partir de uma agressão ao DNA, que pode ser externa (radiação solar, álcool, fumo, etc) ou interna (distúrbios hormonais, por exemplo). Isso gera uma modificação no gene responsável pelo crescimento das células do organismo. Uma vez afetado por essa mutação, o gene leva as células a se dividirem de maneira desordenada e excessiva.
“Para cada tipo de câncer há um tratamento distinto, mas os novos resultados apontam não só para a possibilidade de uma terapia única para tratar uma diversidade de cânceres como pode indicar que, no futuro, poderia ser possível atuar em nível preventivo”, comentou Dale.

Eventos cardiovasculares

Os eventos cardiovasculares ocorrem diante do estreitamento do vaso sanguíneo, fazendo com que menos oxigênio chegue até os tecidos cerebrais ou cardíacos, por exemplo. Esse estreitamento é causado por uma placa que se forma na parede do vaso. “Uma das principais teorias que explicam esse fenômeno indica que uma lesão inflamatória crônica na parede do vaso favorece a infiltração de células de defesa, desencadeando um processo cicatricial. Isso cria uma placa que pode se romper facilmente, provocando esses eventos isquêmicos”, disse Guilherme Renke, cardiologista membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). 
Ainda de acordo com ele, essa inflamação crônica pode ser causada por fatores genéticos ou doenças sistêmicas como dislipidemia (níveis elevados de gordura no sangue), hipertensão arterial, hemocromatose (excesso de ferro no organismo), obesidade e diabetes – doenças que, sabidamente, podem provocar estado de resistência insulínica, aumentando o risco de câncer. 
Para casos em que o evento cardiovascular não for um sinal precoce de câncer, a sugestão para evitar uma segunda manifestação é mudar hábitos de vida, que incluem diminuição do stress, melhora alimentar – com redução do consumo de alimentos processados – e aumento do consumo de vegetais. Além disso, vale a pena incluir nessas mudanças a prática de exercícios de reabilitação com acompanhamento médico e seguir as medicações prescritas pelo especialista.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Criado um coração humano 3D com células e vasos sanguíneos

Tem o tamanho de um coração de coelho e, apesar de não conseguir bombear sangue, as suas células são capazes de se contrair. Investigadores israelitas responsáveis pela experiência acreditam que esta técnica poderá ser usada no futuro para transplantes.






Uma equipa de investigadores da Universidade de Telavive revelou, esta segunda-feira, ter criado um coração usando uma impressora 3D. Composto por tecido humano, as células do coração são capazes de se contrair, mas até conseguirmos ter uma réplica 100% funcional de um coração humano ainda é preciso ultrapassar vários desafios. Apesar de ser uma realidade longínqua, os cientistas envolvidos nesta descoberta esperam que o mesmo processo possa ser utilizado para criar corações para transplantes.


“É a primeira vez que alguém, em qualquer lado, conseguiu conceber e imprimir com sucesso um coração inteiro repleto de células, vasos sanguíneos, ventrículos e câmaras”, sublinha Tal Dvir, um dos coordenadores do projecto, citado pelo jornal Times of IsraelOs resultados foram publicados na revista científica Advanced Science.

O coração agora criado tem apenas três centímetros — tamanho que se assemelha ao coração de um coelho. Apesar de as células terem a capacidade de se contrair, o coração ainda não tem a capacidade de bombear sangue. O próximo passo será fazer com que as células comuniquem entre si para se contraírem em conjunto, afirma o investigador.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, as doenças cardiovasculares são uma das principais causas de morte e, nos casos mais graves, os transplantes são a única possibilidade disponível para os doentes. Para criar este coração, os cientistas usaram células adiposas de um paciente, passo importante para diminuir o risco de um eventual transplante ser rejeitado. Outro dos principais desafios colocados passa pela expansão das células até que exista tecido suficiente para recrear um coração de tamanho real.



Correspondência total ao tecido do doente

As impressoras 3D actuais têm limitações de resolução, sendo praticamente impossível imprimir todos os vasos sanguíneos minúsculos que compõem um coração humano. Apesar deste quebra-cabeças, Tal Dvir acredita que a “tecnologia será semelhante” e que, daqui a uma década, “existirão impressoras de órgãos nos melhores hospitais” e a técnica utilizada para a impressão deste coração “será conduzida de forma rotineira”.

A equipa de Tal Dvir começou por utilizar células adiposas de um doente, depois separou-as dos restantes materiais existentes no tecido e transformou-as em células estaminais — com capacidade de dar origem a outras células dos tecidos já diferenciadas e especializadas. A partir daí os cientistas fizeram com que as células se diferenciassem em células do coração e dos vasos sanguíneos. Depois de se misturarem as células com hidrogel, criou-se uma “biotinta” para utilizar na impressora 3D.

“A biocompatibilidade dos materiais criados é crucial para eliminar o risco de rejeição de um transplante, que coloca em risco o sucesso deste tipo de tratamentos. Idealmente, o biomaterial deverá possuir as mesmas propriedades bioquímicas, mecânicas e topográficas dos tecidos do próprio paciente. Com este coração, podemos ver uma aproximação simples a tecidos cardíacos vascularizados que correspondem totalmente às propriedades imunitárias, celulares, bioquímicas e anatómicas do paciente”, afirmou ainda Tal Dvir, citado num comunicado de imprensa da organização Amigos Americanos da Universidade de Telavive.


Órgãos personalizados

Em Portugal, eram 2186 as pessoas que, no início de 2019, aguardavam por um transplante. A capacidade de eliminar a longa lista de espera que confronta os doentes que necessitam dos transplantes é uma das metas que mais motiva a equipa, admite Tal Dvir. “Os pacientes já não terão de esperar pelos transplantes ou tomar medicação para impedirem a rejeição”, pode ler-se no comunicado de imprensa sobre o trabalho. “Em vez disso, os órgãos serão ‘impressos’, completamente personalizados a cada paciente”, prossegue o investigador.

Numa sala laboratorial, uma impressora 3D de grande dimensão enviou um pequeno fluxo de tinta biológica para o interior de um pequeno quadrado. Dentro desse recipiente, um pequeno coração começou a tomar forma. O coração terá ainda de repousar durante um mês para poder contrair-se, segundo Tal Dvir, citado pela Bloomberg. O próximo objectivo será tentar implantar esta criação num animal, apesar de Tal Dvir admitir que ainda não há prazo estipulado para esse passo. O médico israelita avisa ainda que um coração à escala real poderá demorar um dia inteiro a ser impresso e terá milhares de milhões de células, enquanto este coração em versão minúscula tem milhões.


sábado, 13 de abril de 2019

Nasceu bebé com com material genético de três pessoas na Grécia

Nasceu na Grécia um bebé com informação genética de três pessoas diferentes. A mulher de 32 anos — que tinha problemas de infertilidade — conseguiu engravidar através de uma técnica de fertilização in vitro (FIV) que usa material genético da mãe, do pai e de uma mulher dadora, socorrendo-se ao método da transferência de fuso materno (MST, na sigla em inglês). É o terceiro caso reportado mundialmente.
Nuno Costa Borges é o director científico da empresa Embryotools e esteve envolvido neste processo. Em conversa com o PÚBLICO, não escondeu a alegria pelo nascimento do bebé: “O parto foi de cesariana na terça-feira de manhã. Foi muito rápido e uma grande emoção quando vimos que o bebé era saudável.” Nuno Borges já tinha falado com o PÚBLICO em Janeiro, quando foi anunciada a gravidez da mulher grega. Na altura, elogiou a esperança que esta técnica trazia a casais com problemas de fertilidade, aspecto que volta a frisar. “Muitas vezes é uma última tentativa. Antes, a única solução que tinham era aceitar a doação de óvulos que não têm qualquer tipo de relação genética com a progenitora”, nota.

A técnica utilizada consiste em extrair o núcleo de um ovócito de uma dadora com mitocôndrias saudáveis, substituindo-o pelo núcleo de um ovócito da mãe do bebé. Depois, fertiliza-se o ovócito com o espermatozóide do pai e implanta-se no útero da mulher com infertilidade, neste caso da mulher grega de 32 anos.
Esta técnica é utilizada para evitar uma doença que afecta as mitocôndrias – organelos que estão no citoplasma das células e produzem grande parte da energia das células, apelidados de “baterias” das células. Em geral, uma célula pode ter centenas a milhares de mitocôndrias, consoante a função. Na fecundação do ovócito pelo espermatozóide, que dá origem a uma nova vida, as mitocôndrias do futuro bebé estão no citoplasma do ovócito, sendo sempre herdadas da mãe.
Se no grupo de mitocôndrias de um ovócito fecundado uma percentagem substancial delas tiver uma mutação genética nefasta, então o futuro bebé poderá adoecer e morrer. É por isso que se discute a aplicação de técnicas FIV alternativas para evitar as doenças mitocondriais. Isso implica que haja uma “mãe” dadora de mitocôndrias saudáveis para o futuro bebé. Ou seja, este bebé possui material genético de três pessoas.
O bebé que nasceu na terça-feira com 2,9 quilogramas e foi o terceiro nascimento bem-sucedido usando este procedimento. O primeiro bebé com material genético de uma segunda mulher nasceu em Setembro de 2016, no México. Foi, curiosamente, uma equipa norte-americana a levar a cabo o processo, apesar de nenhuma das técnicas de FIV estarem aprovadas no país. A 5 de Janeiro de 2017, na Ucrânia, nascia uma menina filha de um casal infértil graças a esta “nova” técnica.

FONTE: https://www.publico.pt/2019/04/11/ciencia/noticia/nasceu-terceiro-bebe-material-genetico-tres-pessoas-grecia-1868950

Cientistas criam janela para o cérebro: um crânio transparente impresso em 3D


Ao implementar crânios transparentes em cobaias, os cientistas acreditam ser capazes de observar novas pistas sobre o funcionamento do cérebro.

Uma equipa de cientistas acredita que, ao implementar crânios transparentes em cobaias, podem ser capazes de observar novas pistas sobre o funcionamento do cérebro como um todo. Esta inovação pode ser uma mais-valia e um passo importante na obtenção de novos tratamentos para a doença de Alzheimer, Parkinson e outros distúrbios cerebrais.
“Este novo dispositivo permite-nos observar a atividade cerebral ao menor nível, ampliando os neurónios específicos e obtendo uma visão geral de grande parte da superfície cerebral ao longo do tempo”, explicou em comunicado Suhasa Kodandaramaiah, cientista da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.
Num estudo publicado recentemente na Nature Communications, a equipa detalha de que forma usou um scanner e uma impressora 3D para criar as réplicas transparentes dos crânios de dezenas de ratos de laboratório.
Segundo o Futurism, durante a cirurgia, os cientistas substituíram os crânios das cobaias pelas réplicas transparentes, dando-lhes o nome de See-Shells.
Os investigadores usaram o crânio transparente impresso em 3D para estudar de que forma uma leve concussão numa determinada região do cérebro afeta o resto do órgão, e acreditam que o See-Shell permitirá estudos semelhantes de outros tipos de problemas cerebrais.
“São o tipo de estudos que não poderíamos fazer em humanos“, disse o cientista Timothy J. Ebner, também em comunicado. “Ainda assim, são estudos extremamente importantes para a nossa compreensão de como funciona o cérebro, para que possamos melhorar os tratamentos já existentes para pessoas que sofrem de doenças ou lesões cerebrais.”
Os cérebros dos ratos são muito semelhantes aos cérebros humanos. Por esse motivo, este dispositivo abre a porta a pesquisas em cobaias com doenças cerebrais degenerativas que afetam humanos, nomeadamente o Alzheimer ou a doença de Parkinson.
A tecnologia permite observar as mudanças globais numa resolução temporal sem precedentes. Num vídeo reproduzido com o dispositivo, as mudanças no brilho do cérebro da cobaia correspondem a um aumento ou diminuição da atividade neuronal. Por sua vez, os flashes subtis correspondem a períodos em que todo o cérebro é ativado de repente.
Com base neste dispositivo, os cientistas estão a tentar entender o motivo desta atividade global cerebral coordenada e o que isso significa para o comportamento.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Leve “batida” eléctrica ajudou a recuperar a memória que se perde com a idade

Investigadores conseguiram reverter o declínio da memória relacionado com a idade através de fracos estímulos eléctricos sincronizados em determinadas regiões do cérebro.



Uma equipa de investigadores conseguiu reverter o declínio da memória relacionado com a idade através de uma estimulação das áreas temporais e pré-frontais do cérebro num ritmo específico, segundo um estudo publicado esta semana na revista Nature Neuroscience. No artigo, os cientistas referem que uma leve corrente eléctrica foi capaz de levar os participantes com mais de 60 anos a executar tarefas que envolviam o recurso à chamada memória de trabalho, como o mesmo nível de desempenho obtido por jovens entre os 20 e 29 anos.

Chamam-lhe memória de trabalho ou a curto prazo e muitas vezes é comparada à bancada de trabalho ou ao primeiro rascunho da mente. No fundo, é onde a informação entra e fica temporariamente armazenada para a usarmos a curto prazo. Para fazermos uma rápida conta de matemática, por exemplo, ou para nos lembrarmos de tomar um medicamento ou da lista de compras do supermercado. Trata-se de uma tarefa alojada em regiões cerebrais específicas que já foram identificadas em estudos anteriores, mais precisamente, o neocórtex, as áreas temporais e pré-frontais. São as zonas que servem de marca em termos evolutivos, são as mais avançadas e, por isso, aquelas que nos fazem humanos e nos isolaram no reino animal.

Com a idade, o sistema cerebral altera-se. E se algumas competências ficam preservadas e estabilizam, outras nem tanto. Ficamos mais sensatos, diz a sabedoria popular sobre o fenómeno que os cientistas encontram no amadurecimento do “conhecimento semântico” ou do “processamento emocional”. Mas nem tudo estabiliza. Nalguns casos pode existir uma regressão neste frágil e precioso sistema cerebral, ou seja, um declínio cognitivo. Ao longo do tempo, quando chegamos aos 60 ou 70 anos, há circuitos que se desligam ou que se separam.

"Em adultos jovens, a memória de trabalho está ligada a interacções neurais específicas dentro e entre as regiões cerebrais. Acredita-se que esse processo envolva dois padrões de oscilação neural, ou ondas cerebrais”, refere um pequeno resumo do artigo publicado pela Nature. Estes padrões de oscilação neural têm um ritmo específico. E cada pessoa terá a sua própria batida. Assim, neste estudo, os investigadores começaram por ouvir o ritmo dos cérebros dos participantes, usaram a eletroencefalografia (EEG) para perceber como essas interacções mudam em adultos mais velhos e como se relacionam com a memória de trabalho.

Depois, com um procedimento de estimulação cerebral não invasivo, tentaram modular as interacções individuais de ondas cerebrais associadas à memória de trabalho. Os participantes não sentiam mais do que um ligeiro formigueiro inicial e rapidamente se adaptavam à sensação para passar a não sentir nada, explicam os investigadores que assinam o artigo. O plano era melhorar a comunicação entre o córtex pré-frontal do cérebro (à frente) e o córtex temporal (no lado esquerdo), ou seja, as zonas onde se tinha notado uma queda no ritmo e sintonia.

Quarenta e dois adultos mais jovens (20-29 anos) e 42 adultos mais velhos (60-76 anos) foram avaliados no seu desempenho numa tarefa que exigia memória de trabalho, com ou sem estimulação cerebral. “Sem estimulação cerebral, os idosos eram mais lentos e menos precisos na tarefa de memória de trabalho do que os adultos mais jovens”, refere o comunicado. As tarefas pedidas consistiam em olhar para uma imagem no computador, depois uma página em branco por três segundos e, finalmente, uma segunda imagem idêntica à primeira ou ligeiramente alterada. Os participantes tinham que dizer se era a mesma imagem ou não.


O efeito não acaba com a estimulação.

Numa conferência de imprensa organizada pela Nature, Robert Reinhart, um dos principais autores do estudo e investigador na Universidade de Boston, explicou que depois de cerca de 25 minutos de estimulação cerebral activa, a precisão da tarefa de memória de trabalho dos adultos idosos melhorou ao ponto de ficar semelhante à dos adultos jovens. O efeito, disse ainda, durou 50 minutos após a estimulação ter sido administrada mas o investigador admite que pode ser ainda mais prolongado. Esse foi só o tempo usado no estudo para a observação dos resultados.

O neurocientista esclareceu ainda que a estimulação usada neste trabalho tem características especiais. Tem, por exemplo, uma frequência que é “sintonizada” de forma personalizada e é um tipo de estimulação eléctrica de alta definição, com recurso a correntes alternadas. “É feita à medida de cada participante e de acordo com a dinâmica das redes neuronais gravadas antes da estimulação.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Nova tecnologia para avaliar em casa o funcionamento do coração

Investigadores da Universidade de Coimbra desenvolveram tecnologia “baseada no bater do coração”, de “baixo custo e não invasiva”, que permite caracterizar e avaliar, em casa, o funcionamento do coração.



o sistema integra três componentes: sensores (que podem ser colocados, por exemplo, no vestuário), um telemóvel (que recebe os sinais dos sensores) e um servidor


Uma equipa de investigadores do Departamento de Engenharia de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) propõe “uma nova abordagem tecnológica baseada no som dos batimentos cardíacos, que permite a monitorização contínua das doenças do coração em casa”, afirma a FCTUC, numa nota de imprensa divulgada hoje. O grupo de investigadores, liderado por Paulo de Carvalho, especialista em informática clínica, desenvolveu, com a colaboração de três médicos, “uma tecnologia de baixo custo e não invasiva, em que o som cardíaco é a chave de acesso a um conjunto de informação necessária para caracterizar e avaliar o funcionamento do coração”, refere a FCTUC.
Basicamente, a partir do som do batimento cardíaco, “obtido com recurso a pequenos sensores, desenvolveu-se um algoritmo [software] que permite extrair automaticamente os denominados tempos sistólicos do coração e estimar o débitocardíaco”, explica, citado pela FCTUC, Paulo de Carvalho. De acordo com a mesma nota da FCTUC, há dois tempos sistólicos que são fundamentais para a avaliação do estado de saúde do coração: “o período de pré-ejecção (PEP), que funciona como comando para o coração contrair (uma espécie de “motor de arranque"), e o período de ejecção -- o tempo que o ventrículo esquerdo está contraído para ejectar o sangue para a aorta”. 
Com os dados obtidos durante esta dinâmica cardiovascular, a nova tecnologia avalia continuamente a função cardíaca, fornecendo aos cardiologistas o relatório sobre a situação do doente. Para tal, o sistema integra três componentes, designadamente sensores (que podem ser colocados, por exemplo, no vestuário), um telemóvel (que agrega os sinais provenientes dos sensores) e um servidor (que armazena a informação), explicita a FCTUC. 

A grande vantagem desta tecnologia é permitir “o seguimento permanente de vários tipos de patologias cardiovasculares, em particular a insuficiência cardíaca, em ambulatório”, sublinha Paulo de Carvalho. “Não estamos a inventar informação nova, já que a auscultação sempre foi e continua a ser uma fonte de informação extremamente relevante no diagnóstico e prognóstico médico, sobretudo em cardiologia, apenas encontrámos uma nova solução para fornecer ao clínico informação que ele já percebe”, salienta o investigador. Ou seja, “descobriu-se uma forma de obter em casa informação que até agora só era possível adquirir no hospital”. 

“Com esta tecnologia, o doente tem um acompanhamento constante e de longo prazo no conforto do seu lar”, acrescenta Paulo de Carvalho. Atualmente, o acompanhamento dos doentes é realizado periodicamente, tipicamente em consultas de seis em seis meses, mas com este tipo de sistemas de monitorização contínua “consegue-se fazer uma correcção muito mais fina, evitando que o doente evolua para situações agudas”.
Trata-se de “uma ferramenta valiosa para o prognóstico e diagnóstico, de simples utilização”, assegura ainda o investigador e docente do Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra. Por isso, conclui a FCTUC, “está-se perante uma tecnologia que pode fazer a diferença na gestão das doenças cardiovasculares, que são a principal causa de morte em todo o mundo”. A solução -- que “está pronta a entrar no mercado, assim a indústria a pretenda implementar” -- foi desenvolvida no âmbito do projecto SoundForLife, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e testada em doentes internados no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e em pessoas saudáveis (grupo de controlo).

Fonte: https://www.publico.pt/2019/04/08/ciencia/noticia/nova-tecnologia-avaliar-casa-funcionamento-coracao-1868425

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Biopsias vão acabar? Novo aparelho poderá permitir detetar células cancerosas de forma mais fácil e eficaz

É a esperança que nasce de uma experiência que está a ser feita por investigadores da Universidade de Michigan.




Um aparelho pouco maior do que uma caixa de fósforos, usado no pulso e ligado a uma veia, poderá um dia substituir as biopsias como forma de detetar o cancro. Pelo menos é essa a expectativa que suscita o trabalho que uma equipa de médicos e engenheiros estão a desenvolver na Universidade de Michigan.

Um dos problemas principais no combate ao cancro é a dificuldade que muitas vezes existe em descobrir marcadores tumorais - substâncias encontradas no corpo que indicam a presença de um tumor. Segundo o site technology.org, um tumor pode libertar mais de mil células cancerosas num minuto, mas descobri-las a partir de amostras sanguíneas é difícil. Uma única amostra pode não conter mais do que dez, no meio de tudo o resto que lá se encontra.

No método agora a ser experimentado - para já, as experiências estão a ser realizadas em cães; espera-se que daqui a três anos ou pouco mais chegue a vez dos humanos - o aparelho recolhe sangue continuamente ao longo de duas horas, e a quantidade de células cancerosas encontradas em cada mililitro de sangue é 3,5 superior à de uma recolha de sangue habitual.


“NINGUÉM QUER FAZER UMA BIOPSIA” 
Um dos investigadores envolvidos compara a diferença àquela que existe entre uma câmara de segurança que tira fotografias de vez em quando e uma câmara vídeo a filmar continuamente. Com a primeira, há uma boa probabilidade de um ladrão entrar sem ser detetado. A metáfora também serve para as biopsias, dada a probabilidade de que a amostra de tecido retirada ao paciente não contenha células tumoriais suficientes para permitir um diagnóstico correto.

O líder do estudo agora noticiado, Daniel F. Hayes, é médico e investigador do Centro Rogel do Cancro na Universidade de Michigan. Resumindo o que está em causa, diz: "Ninguém quer fazer uma biopsia. Se conseguirmos obter suficientes células cancerosas a partir do sangue, poderemos usá-las para aprender sobre a biologia do tumor e orientar o tratamento para o doente. É essa a excitação do que estamos a fazer".

Segundo o 'paper' agora publicado na revista Nature, nas experiências já realizadas conseguiu-se analisar entre 1 e 2% do sangue total dos animais. Estes tinham sido injetados com células cancerosas que ao fim de umas horas seriam eliminadas pelo sistema humanitário dos animais.

Sedados e ligados a um protótipo do aparelho, também lhes foram sendo retiradas e analisadas amostras de sangue de 20 em 20 minutos. Isso permitiu constatar a eficácia do novo método em relação ao tradicional.


domingo, 7 de abril de 2019

Vacina da gripe substituída por pastilhas efervescentes e com gema de ovo



A equipa de investigadores: Marguerita Rosa, Emanuel Capela e Mariam Kholany 



Uma equipa de investigação da Universidade de Aveiro está a desenvolver pastilhas efervescentes para combater o vírus da gripe, um método não invasivo que poderá vir a substituir a vacinação tradicional, anunciou hoje fonte académica.
As pastilhas efervescentes "contêm anticorpos da gema do ovo específicos para as proteínas membranares constantes do vírus, suplementadas com vitamina C e outros minerais para reforçarem o sistema imunitário", explica um texto universitário sobre o projeto de investigação.
"Trata-se de um método passível de ser utilizado por toda a população e não apenas por doentes de risco, tendo a vantagem de ser não invasivo quando comparado com a vacinação tradicional", garante a equipa de investigação.
O "segredo" das pastilhas, feitas à base de vitamina C e de vários minerais, está nos anticorpos retirados das gemas dos ovos das galinhas.
Sem as contraindicações das vacinas que todos os anos têm de ser reformuladas e sem a agulha invasiva, as pastilhas desenvolvidas pelo projeto da Universidade de Aveiro, que espera obter financiamento, apresenta-se como um meio "capaz de revolucionar o combate à gripe".
Os anticorpos 'igy' (assim se denominam os ingredientes chave das pastilhas efervescentes) são produzidos exclusivamente por aves, estando concentrados nas gemas dos ovos.
"Uma pastilha por dia"
São proteínas que atuam no sistema imunológico como defensoras do organismo e é possível manipulá-las de forma a torná-las armas eficazes no combate ao Influenza, o vírus causador da gripe, apontam os investigadores do Departamento de Química (DQ) da Universidade de Aveiro.
A ideia de incorporar os anticorpos 'igy' em pastilhas efervescentes foi desenvolvida por Marguerita Rosa, Emanuel Capela e Mariam Kholany, estudantes de Doutoramento em Engenharia Química do Departamento de Química e do Instituto de Materiais de Aveiro da UA (CICECO).
"Uma pastilha por dia é o que desejamos alcançar para manter a proteção ao longo do tempo de maior incidência do vírus da gripe", referem os investigadores, esperando que esses anticorpos "não espoletem reações inflamatórias no sistema imunitário humano, diminuindo passivamente a carga viral da pessoa afetada".

Fonte: https://www.dn.pt/vida-e-futuro/interior/investigacao-da-universidade-de-aveiro-cria-vacina-da-gripe-em-pastilhas-10752028.html

Cientista obtém bolsa de 160 mil euros para estudar o parasita da doença do sono

A investigadora Mariana De Niz obteve uma bolsa de 180 mil dólares (160 mil euros) para estudar o parasita que provoca a doença do sono, anunciou esta terça-feira o Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes, onde trabalha.

A bolsa, que servirá para pagar o seu salário durante três anos e os custos do seu trabalho, é concedida pelo programa internacional de apoio à investigação em ciências da vida “Human Frontier Science Program”.

Mariana De Niz é pós-doutorada do Laboratório de Biologia do Parasitismo do IMM, dirigido pela cientista Luísa Figueiredo, tendo sido a única investigadora em Portugal a ser contemplada este ano com esta bolsa, destinada a jovens pós-doutorados.

Na sua investigação, a jovem “irá explorar a dinâmica e as propriedades biofísicas” do parasita “Trypanosoma brucei” nos “tecidos dos animais vivos”, refere o IMM em comunicado.



O parasita, que se transmite pela picada da mosca tsé-tsé, causa nos humanos a tripanossomíase africana, mais conhecida por doença do sono, e a tripanossomíase animal ou nagana, que afecta o gado. Ambas as doenças atingem países da região da África Subsariana.

Num estado mais avançado, a doença apresenta nas pessoas sintomas como confusão, descoordenação do corpo, formigueiro e dificuldade em dormir e, se não for tratada, pode levar à morte. A doença do sono é uma das patologias tropicais negligenciadas, assim chamadas por estarem associadas a falta de interesse das autoridades e de investimento em novos tratamentos ou na cura.

sábado, 6 de abril de 2019

Morreu prémio Nobel da Medicina Sydney Brenner

De 1998 a 2012, Sydney Brenner foi presidente do conselho científico do Instituto Gulbenkian da Ciência. Até 2015, desempenhou funções na presidência do Comité de Gestão do mesmo instituto. Foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.







O prémio Nobel da Medicina 2002 Sydney Brenner morreu hoje, aos 93 anos, em Singapura, cidade onde vivia, informou a Fundação Calouste Gulbenkian em comunicado.

O biólogo sul-africano, pioneiro na área da biologia molecular, foi galardoado com o Prémio Nobel em 2002, juntamente com o britânico John Sulston e com o norte-americano H. Robert Horvitz, em reconhecimento pelas suas descobertas no campo da "regulação genética do desenvolvimento de órgãos e da morte programada de células".
De 1998 a 2012, Sydney Brenner foi presidente do conselho científico do Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC), dedicado à investigação biológica e biomédica. Até 2015, desempenhou funções na presidência do Comité de Gestão do IGC.
Segundo a Fundação Calouste Gulbenkian, Sydney Brenner "teve um papel fundamental no desenvolvimento da instituição e na internacionalização da ciência portuguesa". Por esse motivo, em 2009, foi distinguido pelo ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, condecoração destinada à ciência e cultura.
A diretora do Instituto Gulbenkian da Ciência, Mónica Bettencourt Dias, citada no comunicado, descreve Sydney como "um cientista brilhante" que "continuava a impressionar" quem o ouvia.
Mónica Bettencourt Dias acrescenta que foi "uma sorte imensa tê-lo como pilar essencial de apoio ao desenvolvimento e consolidação do IGC", louvando Sydney Brenner pelo seu apoio à direção, estudantes e investigadores do instituto.